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"Luto" de uma mãe narcisista

2020.01.01 21:40 thepotatobrother "Luto" de uma mãe narcisista

Well, vou colar uma parte de um outro desabafo que escrevi para entenderem o contexto:
"Hola! Então, meu sentimento com minha mãe sempre foi uma incógnita: do tipo que me dá um desconforto extremo em abraçar, não sinto bem em dizer "eu te amo", sabe? Essas coisas de carinho que a gente é ensinado para repassar aos pais. O problema começa no final da infância, fui abusado sexualmente na escola por outros coleguinhas, falei com minha mãe sobre isso na época, ela não se importou muito apesar de falar com a diretora, apesar de estar profundamente abalado, várias vezes ouvi um "não liga para isso, é só vc ignorar que eles não enchem teu saco". Grupinhos me enchiam de porrada, era considerado o mais feio da escola, tentei conversar mas sempre tive essa distância. Cada vez mais comecei a ficar revoltado com tudo, não queria mais obedecer meus pais porque minha mente estava sempre sobrecarregada, sem contar as brincadeiras de mau gosto que eu aturava do tipo: "vou dar injeção letal em você, assim vc acalma sua rebeldia" ou "nossa, você parece um bebezinho chorando assim crises de depressão, vou te levar para o hospício pq vc deve ser louco". Na adolescência lidava direto com meus pais brigando, pq ficavam se traindo o tempo todo.
Chegou um ponto da minha vida que não aguentei mais, 16 anos comecei a estudar feito louco, passei em 3 universidades públicas e me mandei da capital de SP e fui para quase fronteira do Uruguay viver. Me formei, porém o RS tá quebrado em vários aspectos básicos: saúde, educação, lazer...voltei para SP. Nosso relacionamento estava até que "ok" na distância, fora o fato que ela (faz um ano), me procurou pra desabafar e receber conselhos pq quer se separar do meu pai. É aí que começou os problemas novos de agora.
Ela disse que estava emocionalmente sufocada, não aguentava mais viver com meu pai pois ele é controlador (na verdade tem uma baixa auto estima terrível e não aceita coisas diferentes do que ele pensa). Ela me ajudou no contrato em um apê para a gente dividir o aluguel, topei tbm para ela n ficar na mesma casa que meu pai, disse que não aguentava mais trabalhar com ele (eles tem uma loja de autopeças juntos), falei para ela sair, indiquei 3 empregos e não foi atrás. Disse que o emocional está abalado, fui atrás de psico preço popular para ela, não foi atrás. Minha mãe não aceita também ouvir coisas diretas, recentemente ela disse que estava cansada de fazer comida, mas ELA NÃO PRECISA fazer comida para mim, sei fazer comida boa e saudável, ela simplesmente não quer que eu faça minha própria comida, fala que "não preciso ficar nervoso, faço pq eu quero" mas pq reclama, Jesus? Meu pai me chamou para ajudar nas pendências da loja por causa da separação, eu me concentrando em assuntos sérios de vendas, do nada ela quer brigar de lutinha comigo, me cutucando todo segundo e querer fazer cócegas, essa de me cutucar me irrita em um nível alto com qualquer pessoa me fazendo isso, falei de boa com ela: "olha, eu tenho limites, não quero que vc faz isso" e simplesmente não me ouviu, começou a brigar que sou um mal humorado e começou a dizer que somente eu faço tais "crueldades" com ela, que estou ficando igual um tio ranzinza meu (que tbm eh cheio dos problemas psicológicos) começou a falar para meu pai me "amansar" pq estou sendo muito frio (ele ficou quieto na hora e sim...ela decidiu continuar trabalhando com ele), chegou um hora que fui irônico e falei: "nossa, coitada de vc, já pensou em vazar daqui?" E deixei chorando sozinha pq real, percebi que era chantagem emocional e isso não cola pra mim. "
Atualização: Chegou em um ponto que precisei falar no telefone pra ela: "ou você se trata no psicólogo, ou te expulso daqui". Ela ficou quieta, não quis dizer nada. Mas depois lembrei que ela me ajuda no aluguel e falei "vc pode ficar aqui, é tudo seu, eu vou para um albergue temporário longe de vc". Ela insistiu em dizer que fico colocando coisa na minha cabeça sobre ela, que tem vergonha de dizer para a família as coisas que faço com ela, mas continuei não ligando e firme no que falei. Gritou comigo dizendo "vc não aprendeu nada com budismo, é um ingrato, te dei tudo e vc faz isso comigo". Ela decidiu não vir para o apê, preferiu morar na sobreloja da firma. Minha consciência tá tranquila pq foi escolha dela isso no final das contas, e ela podia ficar em local mais confortável sozinha. Estou recebendo dinheiro na empresa deles para pagar minhas despesas e dinheiro para cirurgia que vou fazer, pelo SUS demoraria no mínimo dois anos para fila de espera...e agora estou no processo de entender que por mais que me esforce, minha mãe não será aquele desejo que todo filho tem de ter uma companheira do seu lado, alguém empático e tudo mais, ela não vai deixar de me culpar por tudo e entender meu lado, depressão e ansiedade, que não é brincadeira essas coisas. Estou no processo de cortar esse vínculo. Passei ano novo com meu pai somente, não conversei mais com ela, só dou "bom dia" de respeito na loja e nada mais. Uma boa parte desse peso de trauma de infância me tirou das costas, agora é lidar com essa dor de ter a pessoa que me gerou por perto, mas não de fato uma mãe.
Obrigado a vc que teve paciência para ler meu texto.
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2019.10.22 16:41 slimpedroca Não tá entendendo o que tá acontecendo no Chile? Leia esse texto

O texto abaixo é de autoria do sociólogo Otavio Rojas, que está em Santiago, capital do Chile. Foi publicado como post no Facebook na noite de domingo e reproduzido em vários sites de esquerda (não vou colocar o link do Facebook aqui porque as regras do Brasil não permitem). É uma análise e explicação do que está ocorrendo no Chile e vai até meados do domingo. Ele não postou nenhuma atualização desde então. Além do texto, há um podcast da análise, para quem preferir.
Sobre o viés de esquerda do texto: sim, ele tem um viés de esquerda. É um sociólogo de esquerda escrevendo, claro que tem um viés de esquerda.
Notícias do Chile
Como muitos já estão acompanhando, há uma verdadeira rebelião popular em curso no Chile. O país que era o exemplo sul-americano de estabilidade e modernidade explodiu.
Quero contar um pouco de como estão as coisas por aqui desde o início da rebelião.
Na semana passada o governo anunciou um aumento da passagem dos ônibus e metrôs de Santiago. O aumento anunciado foi de 30 pesos, mais ou menos 4 centavos de dólar. Um valor irrisório, se não fosse só a ponta do iceberg. No entanto, o buraco é mais embaixo, como dizemos no Brasil.
O Chile foi um dos berços ou laboratórios do que se conhece como neoliberalismo. Aqui, desde a ditadura de Pinochet, todo o plano econômico dos neoliberais da Escola de Chicago foi implementado desde fins da década de 1970. A maioria dos serviços públicos foi privatizada. As universidades públicas são todas pagas. No Brasil, temos a ideia de que algo público é gratuito, mas isso não é assim em vários países. No Chile, uma mensalidade em uma universidade pública pode custar mais do que em uma universidade privada. Como os salários das famílias são muito baixos (mais de 50% da população vive com menos de salário mínimo), as famílias não têm dinheiro para pagar as mensalidades. Isso gerou, há anos, um enorme problema de endividamento dos estudantes e de suas famílias. Aqui, um estudante que termina seu curso universitário pode passar 10 ou 15 anos pagando os empréstimos que tomou.
A saúde pública também é paga. Não existe um SUS. Os hospitais públicos são caóticos, todos os anos morrem milhares de pessoas nas filas de espera. Quem tem dinheiro para pagar um plano de saúde privado acaba comprometendo grande parte de sua renda nisso, já que os planos não cobrem todos os gastos de atendimento hospitalar, internações, cirurgias, etc. Se uma pessoa fica doente e se salva, seguramente sairá com uma enorme dívida que terá que pagar pelos próximos anos.
Os direitos trabalhistas foram destruídos pela ditadura. A jornada de trabalho é de 45 horas, as férias são de 15 dias, os trabalhadores têm meia hora de almoço. A maioria dos sindicatos não têm nenhum poder de negociação, já que dentro de uma mesma empresa é permitida a existência de muitos sindicatos do mesmo setor (dentro de uma mina, por exemplo, podem existir 20 ou 30 sindicatos). O resultado disso é que os patrões fazem o que querem. A possibilidade de reação dos trabalhadores é pequena. E quando há sindicatos fortes, estão na mão de burocratas que defendem mais os patrões do que os trabalhadores.
Uma das heranças mais nefastas da ditadura é o sistema de aposentadorias. Todo o sistema é privado. A aposentadoria dos trabalhadores é administrada pelas AFPs, Administradoras dos Fundos de Pensão. São empresas privadas que utilizam a enorme quantidade de recursos que é descontada todos os meses dos salários dos trabalhadores para lucrar. O dinheiro das aposentadorias é utilizado para financiar os negócios dos próprios empresários, comprar ações de empresas, etc. Os próprios donos das AFPs, que também são donos de muitas outras empresas, bancos, seguradoras, etc., utilizam esse dinheiro para financiar, com baixíssimas taxas de juros, seus outros negócios. É uma mina de ouro. Esse é o modelo de capitalização individual que Bolsonaro e Guedes quiseram implementar já com essa Reforma da Previdência no Brasil. Ainda não conseguiram, mas o projeto virá logo mais. Trata-se de destruir o sistema público (INSS) para que as empresas privadas administrem o dinheiro acumulado pelos trabalhadores. A lógica das AFPs é nefasta. Essa enorme soma de recursos é investida no mercado. Se há ganhos, isso fica pros acionistas das AFPs, se há perdas, esse dinheiro é retirado da aposentadoria dos trabalhadores. E o pior, a maioria dos trabalhadores se aposenta com menos de 30% do que recebia antes. Isso explica em grande parte o enorme aumento do número de suicídios de idosos na última década.
Nos últimos anos milhões de chilenos saíram às ruas de forma pacífica contra as AFPs e defendendo a volta de um sistema público de aposentadorias (como o nosso INSS). A resposta dos governos (de “esquerda” e de direita) foi fazer promessas e não mudar nenhuma vírgula. Agora, pior, o governo de Piñera (atual presidente) mandou ao Congresso uma reforma que entrega ainda mais dinheiro para as empresas.
Nas principais empresas do país, a exploração é brutal. O Chile é o maior produtor de cobre do mundo. Os mineiros, com um longo histórico de lutas, e suas famílias, sofrem diariamente as consequências mais nefastas da mineração – as doenças pulmonares (como a silicose), doenças musculares, psicológicas, etc. Muitos mineiros trabalham longe de suas casas, em turnos de 10/10 (10 dias de trabalho, 10 de descanso), o que os leva a ter uma dinâmica familiar muito difícil e penosa.
A situação do principal povo originário, os mapuches, é dramática. Há séculos esse povo vem resistindo às ofensivas dos empresários e do Estado para tomar suas terras, que se concentram principalmente na região sul (a mais fértil) do país. Há séculos há uma verdadeira guerra contra os mapuches.
Dito tudo isso, agora podemos voltar ao aumento da passagem.
Na semana passada, então, o governo decidiu aumentar o preço da passagem. Um trabalhador ou uma trabalhadora que toma dois metrôs por dia pode chegar a gastar em um mês, 1/6 do salário mínimo.
O aumento, claro, não foi bem recebido. Nos dias seguintes ao anúncio, muitos estudantes secundaristas começaram a convocar “pulas-catracas” nos metrôs. O movimento se massificou. O governo respondeu dizendo que não ia diminuir o preço da passagem e colocou a polícia nas estações de metrô. Daí pra frente a coisa foi piorando. Muitos vídeos mostram a polícia jogando bombas de gás lacrimogênio dentro das estações, crianças vomitando, mães chorando, policiais empurrando estudantes pelas escadas. Obviamente o efeito dessas ações foi o aumento das manifestações.
Na sexta-feira (18) o governo militarizou completamente as estações, diante das convocatórias massivas dos estudantes. No horário de pico de saída dos trabalhadores, 18h-19h, o governo resolveu fechar as estações para evitar os pulas-catracas. Essa decisão fez com que milhares de trabalhadores não pudessem voltar às suas casas e tivessem que caminhar. Isso gerou manifestações espontâneas em várias partes da cidade. Na sexta a noite, os conflitos mais violentos começaram.
Em todos os bairros começaram os protestos e confrontos com a polícia. De noite, a coisa já tinha se generalizado. Em todos os bairros da capital já havia protestos. As famílias se somaram à juventude. A polícia reprimiu e reprimiu. A revolta tomou um caráter mais violento. Nessa noite, 16 estações de metrô e um enorme edifício da empresa de energia Enel (localizado na principal avenida de Santiago) foram queimados, houve saques em alguns supermercados e barricadas por toda a cidade. A polícia já não conseguia mais controlar as manifestações.
Na noite de sexta-feira, diante de uma enorme rebelião popular, o governo anuncia o Estado de Emergência na cidade, restringindo os direitos a manifestação e reuniões e passando o controle da cidade às mãos de um general. As Forças Armadas são autorizadas a ocupar a cidade. Mais de 300 pessoas são presas.
A intervenção das Forças Armadas jogou ainda mais lenha na fogueira. Aqui há uma enorme raiva de amplos setores sociais contra as Forças Armadas pelo papel que tiveram na ditadura – os milhares de torturados, assassinados e desaparecidos. A maioria dos militares envolvidos nesses casos nunca foi punida.
A noite de sexta-feira foi de conflitos e barricadas. Não sabíamos como iria amanhecer o dia seguinte. A presença das Forças Armadas seguramente intimidaria os manifestantes, pensava o governo. Nada mais equivocado.
No sábado a cidade amanheceu com panelaços e conflitos em praticamente todos os setores populares e alguns bairros de classe-média. Os conflitos agora não eram só com os policiais, mas com as próprias Forças Armadas. Ontem (sábado), os protestos se expandiram para todo o país, de norte a sul, de Arica a Magallanes. O governo decretou estado de Emergência em Valparaíso (cidade portuária com longa trajetória de lutas) e Concepción (uma das principais cidades do sul). Em Santiago, muitos supermercados de grandes empresas (Wallmart, por exemplo) foram saqueados ou queimados. Em um dos incêndios, três pessoas morreram queimadas. Muitas farmácias e grandes lojas foram saqueadas.
Sobre os saques, há cenas muito interessantes. Muitos deles foram protagonizados por famílias e pela população em geral. Em um vídeo que circula pela internet é possível ver um jovem lúmpen que sai carregando uma enorme televisão. Os trabalhadores que organizavam a barricada, ao ver o jovem saindo com a televisão, tomam-na de suas mãos e a atiram na fogueira da barricada. O televisor começa a arder em chamas. Os alimentos saqueados, em vários lugares, foram repartidos pelos trabalhadores presentes nas barricadas.
O processo é totalmente espontâneo e sem direção. Os partidos tradicionais não conseguem controlá-lo. O governo está perdido. Ontem, teve que retroceder e declarou a revogação do aumento da passagem. Ao mesmo tempo, o general encarregado de Santiago, anunciou um toque de recolher a partir das 22h. Nada poderia enfurecer ainda mais a população, que saiu às ruas massivamente após o toque de recolher e passou a noite nas barricadas enfrentando-se com a polícia e o exército. Os protestos ganharam muito apoio popular, apesar da campanha dos grandes meios de comunicação para criminalizar os “vândalos” que estavam queimando os metrôs e saqueando os supermercados. Entre os trabalhadores se armou também um grande debate sobre as táticas que devem ser utilizadas no movimento, já que a destruição do transporte público ou outros espaços públicos seguramente acabará significando uma perda para a própria população. Mas a raiva foi incontrolável.
Os vídeos da brutalidade policial e do exército circulam sem parar. Ontem, a cidade de Valparaíso, uma das mais combativas do país, foi completamente ocupada por tropas do exército. Os conflitos se estenderam por toda a noite de ontem. Muitos panelaços foram realizados de norte a sul do país.
Hoje o dia amanheceu relativamente tranquilo. Alguns ônibus circulavam por Santiago. O aeroporto, no entanto, não funcionou. Muitos voos foram cancelados, o que está gerando um colapso. Logo no início da manhã começaram as concentrações nas praças e outros lugares públicos. Na emblemática Plaza Itália, os conflitos com o exército e a polícia não pararam um minuto. Mais incêndios, mais saques, muitas barricadas. O governo novamente anunciou o toque de recolher para as 19h (há duas horas).
Um novo fenômeno começou a aparecer. Grupos armados de traficantes ou relacionados com a própria polícia começam a assustar as populações mais combativas, atacar feiras e outros pequenos negócios. Há notícias de corte de água em vários lugares de Santiago. Os vídeos da brutalidade das Forças Armadas não param de circular. Se ainda não há nenhum assassinado pela pelas forças militares ou paramilitares, essa é uma possibilidade grande nas próximas horas ou dias.
A fúria popular é enorme e não parece que diminuirá tão cedo. O governo não tem outra resposta além da repressão. Já são 9 mil militares distribuídos pelas cidades ocupadas.
Enquanto escrevo essas linhas, escuto gritos, tiros e bombas ao lado de fora do lugar onde estou.
Bem vindos ao Chile, um oásis de modernidade e estabilidade da América Latina.
(Nos últimos minutos o governo anunciou que já subiu para 7 o número de mortos, que vai aumentar a repressão e ampliar o estado de Emergência para mais regiões)
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